Veja quais são as estratégias da acusação e da defesa no júri dos Nardoni

Sete pontos serão debatidos no julgamento no fórum em SP. Audiência começa às 13h de segunda-feira (22) na Zona Norte.

Acusação e defesa já têm prontos os argumentos que irão levar aos sete jurados para tentar, respectivamente, condenar ou inocentar os réus Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, acusados de matar Isabella em 29 de março de 2008, no mais aguardado julgamento dos últimos anos.

O pai e a madrasta da menina assassinada negam o crime: alegam que uma terceira pessoa o cometeu. Mesmo assim, eles estão presos preventivamente desde abril de 2008 até serem julgados. Para o Ministério Público, o casal discutiu, depois a madrasta esganou Isabella e o pai a jogou pela janela do sexto andar do Edifício London, na Zona Norte de São Paulo.

O júri começa às 13h de segunda-feira (22) no Fórum de Santana, na Zona Norte de São Paulo, e deve durar até cinco dias, segundo estimativa feita pelo juiz Maurício Fossen ao Tribunal de Justiça. Alexandre e Jatobá, que, segundo a defesa, já entram moralmente condenados pela sociedade, poderão deixar o plenário absolvidos (livres) ou culpados (presos).

Pelo menos sete pontos da investigação policial e do trabalho da perícia foram cruciais para incriminar o casal, segundo o Ministério Público. São eles: o ciúme de Jatobá, sangue no carro, sangue na fralda, a marca da tela de proteção na camiseta de Alexandre, a pegada dele no lençol, causa da morte por asfixia e politraumatismo e o tempo para ocorrer o crime (veja quadro abaixo).

Emoção, por conta dos depoimentos dos envolvidos e testemunhas, e provas técnicas deverão dar o tom do julgamento. Os sete temas acima serão debatidos à exaustão pelo promotor Francisco Cembranelli, que culpa os Nardoni pela morte de Isabella, e pelo advogado Roberto Podval, que defende os réus.

Cembranelli vai contar com a presença da advogada Cristina Christo, que será a assistente da acusação. Ela vai levar ao plenário o médico perito João Baptista Optiz Júnior para auxiliá-la na interpretação das provas técnicas. Os três vão sustentar que Alexandre e Jatobá mataram Isabella. Para isso, vão apresentar aos jurados um vídeo feito pelo IC de como o crime pode ter ocorrido, além de uma maquete do prédio de onde Isabella caiu.

Podval terá a ajuda da advogada e perita Rose Soglio, que irá orientá-lo sobre o trabalho da perícia do IC. Eles pretendem apresentar aos jurados todo o material que foi recolhido pela Polícia Técnico Científica de São Paulo do apartamento onde a menina caiu há dois anos. Dentre as peças estão a tela de proteção da janela do sexto andar, que a defesa diz ter sido rompida, a faca e a tesoura usadas para cortá-la, as roupas e sapatos de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá e a fralda que estancou o sangue da criança no dia 29 de março de 2008.

Ciúmes de Jatobá

A primeira prisão do casal Nardoni ocorreu logo após o depoimento da mãe de Isabella, Ana Carolina Oliveira, à Polícia Civil. Oliveira afirma que Anna Carolina Jatobá sentia ciúmes de Alexandre com ela e com a filha Isabella. Segundo afirmou Oliveira ao G1, foi isso que motivou a morte da menina.

Sangue no carro e na fralda

O sangue encontrado no carro também foi determinante para incriminar o casal. Os peritos do Instituto de Criminalística indicaram que Isabella foi agredida no carro por Anna Carolina Jatobá. A madrasta é acusada de usar uma chave para causar um ferimento na testa da menina e provocar sangramento. Apesar da divergência entre os núcleos do IC sobre o sangue achado, a Promotoria entende que o material é de Isabella.

Podval contesta. Ele afirma que o Ceap (Centro de Exames, Análises e Pesquisas) do IC não soube dizer de quem é o sangue.

Para a acusação, uma fralda também foi usada para esconder o ferimento em Isabella e estancar o sangue na testa da menina no trajeto do carro ao apartamento do casal. Segundo a defesa, houve falha no exame de sangue na fralda para constatar que ele é de Isabella.

Marca da tela na camiseta de Alexandre e pegada no lençolA camiseta de Alexandre ficou marcada pela tela de proteção da janela porque ele se escorou para jogar a menina de lá, segundo a perícia. Pegadas correspondentes ao solado do chinelo que Alexandre usava no dia do crime também foram achadas nos lençóis das camas dos irmãos de Isabella, de acordo com o IC.

Podval alega que ele se debruçou sobre a rede após notar que ela estava cortada e perceber que filha havia sumido da cama. E que subiu na cama pelo mesmo motivo.

Causa da morte e tempo do crimeO atestado de óbito aponta asfixia e politraumatismo como causas da morte de Isabella, segundo o Instituto Médico Legal. Mas a defesa coloca em dúvida o documento do IML porque o certificado de óbito indicava causa indeterminada.

A Promotoria informa que o crime contra Isabella ocorreu num período de 12 minutos e 26 segundos. Esse foi o tempo que o motor do carro dos Nardoni foi desligado e o pedido de socorro acabou feito por telefone.

Os advogados do casal, no entanto, sustentam que um ladrão invadiu o prédio e matou Isabella, mas varredura feita pela Polícia Militar e investigação da Polícia Civil e trabalho dos peritos não encontraram nenhum vestígio de terceira pessoa dentro do apartamento. Para a perícia, também não houve tempo hábil para um ladrão invadir o apartamento, esganar Isabella, cortar a tela de proteção, jogar a menina e fugir.

O advogado Roberto Podval contesta a varredura da PM feita no prédio. Isso porque ela foi comandada por um policial (tenente Fernando Neves) que se suicidou meses depois ao ser investigado por pedofilia. Outra tese aventada pela defesa, mas um pouco remota, é a possibilidade de a menina ter sofrido um acidente doméstico e caído sozinha da janela do sexto andar. O advogado chegou a afirmar que talvez nunca se saiba quem realmente matou Isabella. 

Oratória

Além da investigação da Polícia Civil e das provas técnicas produzidas pela Polícia Técnico-Científica, o Ministério Público irá explorar os conflitos familiares envolvendo os réus e seus parentes. A ideia será a de convencer o júri que Isabella encontrava uma família problemática nas vezes em que visitava seu pai. A mãe da menina, Ana Carolina Oliveira, não saberia disso.

Procurado para comentar o assunto, o promotor Francisco Cembranelli não quis entrar em detalhes. Informou apenas que tinha informações sobre problemas familiares envolvendo os réus e que eles poderiam ser utilizados no júri.

O G1 apurou que além das discussões e cenas de violência entre o pai e a madrasta da menina morta, que teriam sido presenciadas por testemunhas e vizinhos, o mais recente escândalo envolve adultério, traição, teste de paternidade e exame de DNA. Tudo está documentado. Trata-se de uma ação conjunta movida pelo pai de Alexandre, Antonio Nardoni e sua concunhada. Ambos pediam à Justiça o reconhecimento do filho da mulher como sendo fruto de um caso que ela teve com Antonio. A decisão que reconheceu a paternidade saiu em 18 de setembro de 2009.

A mulher é casada com o irmão da mulher de Antonio Nardoni. O relacionamento entre ela e o chefe da família Nardoni teria sido revelado dias antes da morte de Isabella, que ocorreu em 29 de março de 2008. Isabella morreu após ter sido jogada da janela do sexto andar do edifício onde o casal Nardoni morava.

O filho da concunhada chegou a ser registrado com o nome do marido dela. Mas um documento obtido pelo G1 revela que, além do reconhecimento da paternidade, Antonio Nardoni e sua concunhada pediram o cancelamento do registro civil em que constava o marido da amante de Antonio Nardoni como o pai da criança. O garoto deve ter 5 anos de idade, atualmente. 

O pedido foi encaminhado à 5ª Vara da Família e Sucessões, no Fórum de Santana, na Zona Norte, de São Paulo, no dia 25 de março de 2008. O número do processo é 583.01.2008.109913-5.

Antonio Nardoni chegou a fazer por conta própria um exame de DNA num laboratório particular para reconhecer a paternidade, mas a Justiça recusou o resultado do teste. Um novo exame teria de ser feito no IMESC.

Procurado para falar sobre o assunto, o advogado Roberto Podval afirmou que não irá se manifestar sobre a vida pessoal da família de Antonio Nardoni.

Indagado sobre o que irá discutir com os jurados, Podval disse que vai mostrar que o trabalho da investigação teve falhas. “Tem uma série de pontos controversos, equivocados. Muitos pontos que estão ali não podem ser afirmados”, disse o advogado.

Dentre as peças usadas pela polícia para acusar o casal estão as manchas de sangue de Isabella espalhadas dentro do apartamento, a marca da rede de proteção da janela na camisa de Alexandre e o fato de mais ninguém ter entrado na residência a não ser o casal. Para a investigação e o Ministério Público, Jatobá esganou Isabella e Alexandre a jogou pela janela do 6º andar do Edifício London.

Com o objetivo de desqualificar o inquérito policial e o trabalho dos peritos do Instituto Médico Legal (IML) e Instituto de Criminalística (IC), das mais de 20 testemunhas para serem ouvidas pela defesa no júri, 16 são peritos e policiais que participaram da investigação do caso Isabella. Além destes, um jornalista, um pedreiro, um ex-advogado do casal e uma mulher que mora em frente ao prédio onde a menina caiu serão chamados.

“Espero um júri de alto nível. O promotor é inteligente, articulado”, disse Podval, que não pretende ouvir a mãe de Isabella. “Não quero ouvir a Ana [Carolina Oliveira] por uma questão de respeito a ela por causa da morte da filha.”

Fonte: www.g1.globo.com

‘Atuo melhor sob pressão’, diz promotor do caso Isabella

Francisco Cembranelli é responsável pela acusação contra casal Nardoni. Ele conta os bastidores de preparação para o júri, que pode durar 5 dias.

Mesmo com 22 anos de experiência e participação em 1.077 júris, o promotor Francisco Cembranelli, responsável pela acusação contra o casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, diz que ainda sente um “estresse psicológico” antes de atuar diante dos jurados. A partir desta segunda-feira (22), ele tentará convencer o júri que os dois são os responsáveis pela morte de Isabella Nardoni, ocorrida em março de 2008.

“Mesmo no júri mais simples do mundo, eu ainda sinto todo o problema psicológico de falar em público, de ter que expor, de procurar fazer o melhor. Isso acaba trazendo um estresse psicológico muito grande”, afirma. Cembranelli acredita, porém, que isso ajuda em seu trabalho. “Eu sou daquelas pessoas que atuam melhor sob pressão, sob estresse. Eu imponho as cobranças a mim mesmo, buscando sempre melhorar.” 

Apesar de estar diante de um julgamento de grande repercussão, o promotor afirma que atua da mesma forma em todos os casos. “Toda sessão para mim tem importância. Eu sou naturalmente assim, atuo em qualquer caso com essa veemência. E é assim que vai ser”, adianta. Na última semana, o promotor se ocupou dos últimos detalhes da acusação. “Você tem um volume grande de documentos e depoimentos e precisa escolher aquilo que vai utilizar, e de uma maneira compreensível.”

Para aguentar um júri com a possibilidade de durar até cinco dias, é necessária uma preparação física. “A preparação precisa ser física e psicológica para enfrentar esse estresse todo de um julgamento longo. Já vi vários júris serem dissolvidos por problemas físicos que acabam surgindo nas partes ou no corpo de jurados. Tem que haver essa preparação para esses embates”, afirma.

Longe dos tribunais, Cembranelli gosta de correr e passar o tempo livre com os filhos. “Eu gosto de correr, já disputei muitas provas. É um momento em que eu consigo esquecer das coisas e você descarrega um pouco essa energia. Gosto de sair com meus filhos, levá-los ao futebol. Isso que faz com que a vida seja menos estressante.”

O promotor e a mulher, que é defensora pública, se conheceram em lados opostos de um júri. Para que o trabalho não interfira na vida pessoal, eles fizeram um pacto. “Há um tempo, estabelecemos um pacto para conversar sobre questões relativas ao júri até um determinado ponto, porque cada um tem uma ideia e, se você ultrapassa esses limites, vira discussão”, conta. Apesar disso, ele diz ser muito difícil não falar sobre os casos. “Constantemente falamos sobre os casos. Isso é um auxílio importante. Antes de ela ser defensora, é minha esposa.”

Caso Isabella
Como pai, Cembranelli fala das dificuldades em lidar com o caso Isabella Nardoni. “A dificuldade sempre vai existir, porque o caso envolve a morte de uma criança. Eu lido com isso há 22 anos, com pessoas que perdem seus parentes, com tragédias, pais muitas vezes revoltados que perdem filhos queridos. Há uma medida certa para que você se situe nesses contextos marcados por tantas tragédias.”

Fonte: www.g1.globo.com